Análise e comentários:
DISCOGRAFIA DE MARCELO JENECI
23 de dezembro de 2025
Douglas Jefferson, bacharel em Filosofia
fonte da imagem: site oficial (marcelojeneci.online)
Marcelo Jeneci, nascido no distrito de Guaianases, cidade de São Paulo, em 1982, mas tendo passado muitos anos da infância em Sairé, Pernambuco, é um músico, cantor e compositor, sendo um dos principais nomes da nova música popular brasileira. Seu gênero varia durante a carreira, indo de uma MPB suave, quase bossa-nova, para ritmos nordestinos mais acalorados, dançantes e tradicionais, como o forró e o baião. Sua música nos leva a contemplar a poesia do cotidiano, como um indicativo: podemos encontrar a felicidade nos detalhes (comumente ignorados) da vida. É majoritariamente otimista, consolando as dores do agora e sorrindo para o amanhã.
Ganhou sua sanfona das mãos de um dos maiores sanfoneiros do Brasil, Dominguinhos, que fora cliente de seu pai, célebre eletrificador dos instrumentos. A partir de então, não parou mais. Até agora, já foram quatro álbuns de estúdio e um EP, com os três primeiros discos sendo mais autorais; e os dois últimos, incluindo o EP, voltados para covers. Além de singles, como a excelente Dia a Dia, Lado a Lado, com participação de Tulipa Ruiz. Sua maior colaboradora, no início, foi a cantora Laura Lavieri, com quem divide os vocais de dois dos seus maiores sucessos: Felicidade e Pra Sonhar, somando juntas mais de 70 milhões de acessos no YouTube. Outros grandes colaboradores, especialmente nas composições, são Arnaldo Antunes e Chico César.
A seguir, acompanhe meus comentários acerca de cada disco da obra de Jeneci:
ÁLBUNS DE ESTÚDIO:
Feito pra Acabar (2010)
Nota pessoal: 9,5 (excelente)
Gênero: MPB. Gravadora: SLAP.
"Felicidade" (Jeneci/Chico César, feat. Laura Lavieri)
"Jardim do Éden" (Jeneci/Antunes/Aguiar, feat. Laura Lavieri)
"Copo d'água" (Jeneci/Antunes/Baby/Salem)
"Café com leite de rosas" (Jeneci/Ortinho/Antunes)
"Quarto de dormir" (Jeneci/Antunes)
"Pra sonhar" (feat. Laura Lavieri)
"Por que nós?" (Jeneci/Tatit, feat. Laura Lavieri)
"Dar-te-ei" (Jeneci/Lopes/Pessoa/Wisnik)
"Longe" (feat. Laura Lavieri)
"Tempestade emocional"
"Show de estrelas"
"Pense duas vezes antes de esquecer" (Jeneci/Ortinho/Antunes, feat. Laura Lavieri)
"Feito pra acabar"
Comentário: O álbum de estreia de Marcelo Jeneci traz participação de Laura Lavieri, seja assumindo os vocais principais, em diversas faixas, seja como vocal de apoio, equilibrando o tom do disco para algo mais suave, com sua voz adocicada. Há dois grandes clássicos do artista: Felicidade e Pra Sonhar. A primeira, logo na abertura, é um banho de poesia e otimismo: “Melhor viver, meu bem, / Pois há um lugar em que o Sol brilha pra você, / Chorar, sorrir também, e depois dançar na chuva / Quando a chuva vem.” A segunda, campeã de acessos, é um hino romântico, perfeita para casamentos aos domingos: “Quando te vi passar, fiquei paralisado / Tremi até o chão, como um terremoto no Japão [...] / Foi assim, viu? / Me vi na sua mão […] / Mil coisas eu deixei, / Só pra te falar: / Largo tudo / Se a gente se casar domingo”. Uma boa surpresa foi a faixa do meio do álbum, quiçá a letra mais bem construída, Por que nós?, um dueto de Marcelo e Laura, com abundante uso de proparoxítonas (raras em nossa língua), sobre pessoas deslocadas no turbilhão do mundo moderno: “Fomos serenos num mundo veloz / Nunca entendemos, / Então, por que nós?”. Logo na sequência, Dar-te-ei, onde o eu-lírico se recusa a dar presentes efêmeros à sua amada, preferindo entregar a si mesmo. No encerramento, Feito pra Acabar, uma canção existencialista de quase sete minutos e meio, com uma ideia de Heidegger: “somos seres para a morte”, voltados e significados para a derradeira finitude. No todo, um disco que oscila entre a leveza e a profundidade, ligando a Natureza, o Cosmos, aos nossos estados emocionais. Em 2020, Jeneci lançou uma edição comemorativa, com três canções inéditas e uma versão de Felicidade em italiano, com participação vocal de Erica Mou.
De Graça (2013)
Nota pessoal: 9,3 (excelente)
Gênero: MPB. Gravadora: SLAP.
"Alento" (Jeneci/Lenza/Antunes)
"De Graça" (Jeneci/Lenza)
"Temporal" (Jeneci/Lenza)
"Tudo Bem, Tanto Faz" (Jeneci/Lavieri/Antunes, vocal: Laura Lavieri)
"Nada a Ver"
"A Vida é Bélica" (Jeneci/Lenza)
"O Melhor da Vida" (Jeneci/Lenza)
"Um de Nós"
"Pra Gente Se Desprender" (Jeneci/Lenza, vocal: Laura Lavieri)
"Julieta" (Jeneci/Lenza)
"Sorriso Madeira"
"Só Eu Sou Eu" (Jeneci/Nestrovski)
"9 Luas" (Jeneci/Costa)
Comentário: O segundo álbum de Marcelo Jeneci tem por conceito que “o melhor da vida é de graça”, valorizando os pequenos prazeres ao nosso alcance. Laura Lavieri participa outra vez; aqui, assumindo os vocais sozinha em duas faixas, Tudo Bem, Tanto Faz e Pra Gente Se Desprender, com seu tom épico, sublime, e predominância instrumental nos minutos finais. Tal participação dos instrumentos, sem voz ou apenas com vocais de apoio, faz-se em diversas faixas, alongando o encerramento ou demais partes das canções. Destaco Temporal, uma ode à consciência de que tudo passa, até os momentos mais difíceis, metaforizados em tempestades, e A Vida É Bélica, uma reflexão sobre a vida na Terra perante o Cosmos: “Além de mim, além de nós / Além dos céus e dos sóis / Aonde não se vê / Será que escutam a minha voz?”. A faixa mais conhecida também é muito boa, O Melhor da Vida, com sua melodia deliciosa: “Se a vida é por um fio, / Valeu pra quem já viu / Seu jeito de tocar no coração”. É um disco um tanto dançante, especialmente nas faixas Sorriso Madeira, com Jeneci abusando do falsete, e Só Eu Sou Eu, uma curtíssima e divertida canção, com coro de vozes, como uma festa de amigos. No geral, diria que sucede muito bem, embora não supere, Feito pra Acabar (2010).
Guaia (2019)
Nota pessoal: 8,5 (ótimo)
Gênero: MPB; eletrônica. Gravadora: SLAP.
"Canto inicial: Ikashawhu/Tribo Yawanawa/Emergencial" (letra de Jeneci/Bernardes/Neves)
"Oxente" (letra de Jeneci/Chico César)
"Vem vem" (part. Muse Maya, letra de Jeneci/Bernardes)
"O seu amor sou eu" (letra de Jeneci/Luiz Tatit)
"Melodia da noite"
"Aí sim" (letra de Jeneci/Arnaldo Antunes)
"Redenção"
"Saudade do meu pai"
"Palavra amor" (letra de Jeneci/Arnaldo Antunes)
"Ritos"
Comentário: O terceiro álbum de estúdio de Jeneci, Guaia (2019), apresenta somente 10 faixas, mantendo o frescor alegre, romântico e poético dos discos anteriores. Porém, aqui, o som é menos acústico, com vários efeitos e batidas eletrônicas, dando um toque ainda mais festivo, dançante, às canções, que sofrem influência direta dos sons do bairro paulistano de Guaianases, na periferia de São Paulo, origem do músico. Na abertura, um canto indígena seguido pelo vocal “ecológico” de Jeneci, num experimentalismo que funciona bem: “No extremo / No breu, do espaço a se perder / Eu tremo e guardo a vida que ainda vai nascer: / Terra, mãe comum. / É emergencial / É emergencial a gente se conectar com a terra”. A terceira faixa, Vem vem, traz um dueto com a atriz e cantora pop Muse Maya, em ritmo quente, cheio de tensão sexual, do início ao fim. A canção mais conhecida é também, quiçá, a melhor: Aí Sim, com seu açucarado balanço, vozes de crianças brincando ao fundo e melodia viciante: “Talvez / Eu consiga superar o temor / Da transformação / Talvez também / Eu decida mesmo só voltar / Pra minha prisão”. Em seguida, Redenção, com a letra mais enigmática, com diversas referências à fé cristã. No encerramento, uma canção sem letra, Ritos, com a voz de Jeneci compondo apenas mais um som entre os instrumentos.
Caravana Sairé (2023)
Nota pessoal: 7,5 (muito bom)
Gênero: Forró; baião; MPB.
"Sou o Estopim" (letra de Antônio Barros)
"Lembrança de um Beijo" (letra de Accioly Neto)
"Baião" (letra de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)
"Amor Não Faz Mal a Ninguém" (letra de Onildo Almeida)
"Devagar" (letra de Petrúcio Amorim)
"Olha pro Céu (letra de Luiz Gonzaga/José Fernandes) / Felicidade" (letra de Jeneci/Chico César)
"Vem Morena" (letra de Luiz Gonzaga/Zé Dantas)
"Oxente" (letra de Jeneci/Chico César)
"Cadeira de Balanço" (letra de Francisco de Assis Nogueira/Lindolfo Mendes Barbosa)
"Ai Que Saudade de Oce" (letra de Vital Farias)
Comentário: O quarto álbum de estúdio é menos autoral, com apenas duas canções (já lançadas em discos anteriores, Felicidade e Oxente, ainda que em novos arranjos) sendo autorais de Jeneci; o restante da obra é composta por covers de grandes clássicos da música popular nordestina, como uma ode às raízes, em ritmos como forró, xote e baião, incluindo principalmente o rei do gênero, Luiz Gonzaga. Particularmente, prefiro a versão de Oxente presente aqui, sendo melhor encaixada na atmosfera do disco: “Busquei / Nas veredas da cidade / Ser inteiro e não metade / Pois metade eu me sinto só. / Sonhei / Com amor e plenitude / Descobri que sonho ilude / E até a pedra vira pó”. A sanfona é quase onipresente, honrando o legado de seu mestre, Dominguinhos, dando o tom geral da ensolarada, quente, festiva obra. Caravana Sairé remete ao show homônimo, apresentado pelo artista no ano anterior, e às suas memórias de infância, tendo vivido alguns dos seus primeiros anos na cidade de Sairé, Pernambuco, sendo certamente influenciado pelo contexto musical daqueles tempos.
EP: Night Clube Forró Latino (Volume I) (2024)
Nota pessoal: 6,8 (bom)
Gênero: Forró; MPB.
"Amor de que" (part. João Gomes, letra de Arthur Magno)
"Um sonhador" (letra de Cesar Augusto)
"Eu sei de cor" (part. Gaby Amarantos, letra de Lari Ferreira)
"Jeneci por Jeneci" (letra de Jeneci, Helder Lopes e Luiz Araújo)
"Árvore" (part. Chico César, letra de Edson Gomes)
"Eu e você sempre" (letra de Jorge Aragão e Flavio Cardoso)
"A Lua e eu" (letra de Paulo Zdanowski e Genival Cassiano)
Comentário: O disco mais recente (e de menor duração, classificando-se não como álbum, mas como EP) é o primeiro volume de um projeto que promete se estender futuramente, com covers de grandes sucessos radiofônicos da música brasileira contemporânea, com hits que vão de Pabllo Vittar, Marília Mendonça, a dupla sertaneja Leandro & Leonardo até Jorge Aragão. É o popular ao extremo, em arranjos que nos transportam a clubes noturnos, em um convite à dança mais colada possível, no ritmo do forró e até do brega romântico. Para tanto, Jeneci convidou três grandes cantores a dividirem seus vocais: João Gomes, Gaby Amarantos e Chico César. Demonstra, infelizmente, um decaimento criativo do poeta, que prefere emprestar outras letras (já consagradas anteriormente pelo povo – em um movimento relaxado, pouco corajoso, que vem desde o álbum anterior) do que criar novas composições, como no início da criativa e brilhante carreira. A quarta faixa traz um monólogo do próprio, refletindo sobre sua história, do Nordeste para o Brasil, com menção ao pai, grande eletrificador de sanfonas.
Discografia completa do artista
Álbuns de estúdio & EP
2024 – EP: Night Clube Forró Latino (Volume I)
2023 – Caravana Sairé
2019 – Guaia
2013 – De Graça
2010 – Feito pra Acabar
FONTES: Site oficial do artista: marcelojeneci.online
FERREIRA, Mauro. Marcelo Jeneci abre alas para 'Caravana Sairé', álbum enraizado na infância pernambucana do artista. 11 de julho de 2023. Disponível em g1.com.
Todos os álbuns acima, em negrito; Spotify; Wikipédia.





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